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Danny Reis, cantora, revisora e tradutora. Apaixonada por artes, idiomas e comportamento.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O que é escrever?



Há pessoas que escrevem corretamente. Sujeito, verbo, predicado, tudo nos seus devidos lugares. Coesão, coerência. Mas se lhes falta alma, é só cérebro. Aí não adianta, que a coisa não pega, não engrena. Nelson Rodrigues dizia que sem alma não se chupa nem um chicabon. Deve ser mesmo.

Em compensação, há pessoas que sabem como contar uma história lindamente. Elas parecem colocar no papel tudo aquilo que sentimos, mas não sabemos como expressar.

O primeiro tipo de pessoas pode ser um excelente revisor (xiiii), redator técnico, acadêmico ou qualquer coisa assim. Mas não é um escritor.

O escritor de verdade expõe sua alma — até quando não deseja. Não necessariamente ele escreve certo. Ele escreve gostoso. Dá gosto ler seus textos porque estes exprimem um sentimento — bom ou ruim, não importa. Assim, ele acaba por antingir em cheio o sentimento do leitor.

Na verdade, é assim que me sinto em relação a toda e qualquer arte. Um quadro pode ser lindo de morrer, mas se ele não expressa um sentimento verdadeiro, não "cola". Um cantor que canta as notas direitinho, de forma afinadinha, mas que não mostra o que vai na sua alma pode ser tudo, menos um artista.

Era mais ou menos isso que dizia uma crônica da Marta Medeiros que li há muitos anos, mas que infelizmente nunca mais encontrei. Ela dizia que a arte, se pensarmos friamente, não tem utilidade alguma. Ela não produz nada de concreto. Mas ela nos fala ao coração — e é aí que reside sua grandeza.

Agualusa e a tradução

Acabei de ler um artigo do escritor angolano José Eduardo Agualusa que amei:

SOBRE O INTRADUZÍVEL
(José Eduardo Agualusa, O Globo, 15.06.2015)



A semana passada jantei em Brighton, no Reino Unido, com o meu tradutor inglês, Daniel Hahn. Conheci Daniel há treze anos, numa altura em que ele estava ocupado a traduzir “Nação Crioula”. Aquela era a primeira tradução de Daniel. Sempre a achei excelente, mas Daniel contesta. Segundo ele contém um erro que o envergonha. Apáginas tantas surge no romance a palavra saudade, que Daniel optou por manter em português, com um asterisco que remete a uma nota de rodapé. Na nota, Daniel explica que a palavra, muito popular no universo de língua portuguesa, é das mais difíceis de traduzir.

O seu sentido, diz, combina emoções diversas, da comum nostalgia e melancolia, ao pesar de alguém longe da pátria, o sentimento de quem está a perder ou perdeu pessoas ou lugares. “Manter uma palavra na língua original, presa a uma nota de rodapé”, acrescenta Daniel, “é para um tradutor uma confissão de derrota.”

Nessa tarde, antes do jantar, entrei numa livraria para ver as novidades e acabei por comprar um livrinho curioso, “Lost in Translation” — um compêndio ilustrado de palavras intraduzíveis, de várias línguas do mundo. O livro, graficamente muito bonito, inclui apenas duas palavras na nossa língua: saudade e cafuné. Foi por causa do livro que a conversa chegou até a “Nação Crioula”.

Daniel Hanh é hoje um tradutor respeitado. Felizmente, para ele e para nós, não lhe falta trabalho. Há cada vez mais autores brasileiros, portugueses e africanos sendo publicados no mercado britânico e norte-americano. “Nada é traduzível. Tudo é traduzível” — disse-me ainda Daniel durante o jantar. Nada é traduzível porque, em rigor, cada palavra guarda um universo próprio. Tudo é traduzível porque não existe nenhum sentimento, por mais raro, por mais bizarro ou singular, que não possa ser expresso, melhor ou pior, numa outra língua. “Hoje eu traduziria a palavra saudade, conforme a situação, por nostalgia, longing, homesickness, etc.”, assegurou-me Daniel.

Curiosamente, acho que me venho movendo num sentido oposto ao do meu tradutor. Durante muitos anos acreditei que a suposta intraduzibilidade da palavra saudade não fosse outra coisa senão um mito poético, criado por portugueses, brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, que diria mais sobre a forma como nos vemos, ou como gostaríamos que os outros nos vissem, do que sobre a palavra em si. Hoje já não penso exatamente dessa forma. Não gosto de notas de rodapé. Gosto, contudo, da ideia de que, vez por outra, um tradutor se renda, derrotado, diante dos mistérios mais profundos de um idioma. “Tenho saudades suas” não é o mesmo que “I miss you” — “sinto sua falta”. É isso, mas é mais do que isso. Na dúvida, convém sempre ir à etimologia. Saudade vem do latim com o significado de solidão. Saudade, pois, é esse achar-se sozinho, longe de algo ou de alguém, e todavia perto através da lembrança e do coração. Não há palavra em inglês que resuma todas estas camadas de sentimentos.

O país que mais cultua a saudade não é nem Portugal nem o Brasil — é Cabo Verde. Basta escutar o fabuloso cancioneiro popular cabo-verdiano para o perceber. Em cada dez canções de autores cabo-verdianos, seis ou sete são sobre saudade. A canção mais famosa de Cabo Verde, aliás, deve ser mesmo “Sodade”, de Armando Zeferino Soares, que Cesária Évora ajudou a popularizar, mas que desde então já foi reinventada por dezenas de outras vozes. O culto à saudade não surpreende se tivermos em atenção que mais de metade dos cabo-verdianos reside fora do arquipélago. Saudade é palavra de viajantes.

Cafuné, a outra palavra portuguesa que Ella Frances Sanders, a autora de “Lost in Translation”, considera intraduzível, parece-me ainda mais interessante que saudade. A palavra vem do quimbundo, língua de Angola, da região de Luanda, e faz referência aos estalidos produzidos pelas unhas do polegar e do indicador, ou do anelar, enquanto se acaricia o cabelo, numa delicadíssima cerimônia de apaziguamento e relaxamento espiritual. Gosto tanto de cafuné, e tenho tanto respeito por essa velha arte, que inclusive escrevi um poema, “Receita para um cafuné segundo N’ga Xixiquinha riá Caxongo”, que a cantora paraibana Socorro Lira musicou e incluiu num dos seus álbuns.

Cafuné parece-me impossível de traduzir em outras línguas, sem uma longa nota de rodapé, desde logo por ser um ritual tão particular, e que tão bem traduz um certo universo íntimo, africano, que o Brasil adotou.

Saudade e cafuné poderiam, afinal, resumir o Brasil: a melancolia lusitana temperando e harmonizando-se com a doçura e a sabedoria ancestral da África. Isto pode ser traduzido? Receio que não.

Adorei o texto dele, por vários motivos:

1 - Amo a língua portuguesa. Mais do que o espanhol, que escolhi como minha segunda língua (mesmo sem nunca ter visitado - até hoje - um país que fale esse idioma), mais do que o italiano e o francês (duas línguas que também acho lindas, mas ainda não aprendi);

2 - Sou tradutora — ainda que iniciante. E é tão bom quanto difícil iniciar algo aos 40, que dirá uma nova profissão. E uma das maiores graças e desafios da tradução tem a ver com palavras, mas não somente. Coisa que só um tradutor entende;

3 - Fiquei feliz por saber da música da Socorro Lira;

4 - Uma confissão: quase sempre que leio um texto, especialmente literário, imagino a voz, a modulação e o sotaque de quem está falando - seja autor ou personagem. Uma maluquice minha que dá um sabor todo especial a um texto. Um livro, por exemplo, fica muito mais divertido;

5 - Adoro sotaques, e gosto de ouvir o jeito angolano de falar. Tem algo de português, mas não é português. Tem algo da malemolência brasileira, embora não seja brasileiro. E soa africano, autenticamente africano. É quase como ouvir outra língua, sabendo que é a sua língua materna. Particularmente, acho isso uma delícia!