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Danny Reis, cantora, revisora e tradutora. Apaixonada por artes, idiomas e comportamento.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Das canções e das lembranças do que não vivi

Certas canções, como escreveu Milton Nascimento, “cabem tão dentro de mim”. Algumas músicas realmente nos batem de forma especial. Uma delas, no meu caso, é Aos nossos filhos, de Ivan Lins e Vitor Martins.

Acontece que sou “filhote da ditadura” (que, aliás, remete a outra música, esta da Suely Mesquita), pois meus pais viveram esses tempos bicudos. E hoje existem pessoas saudosistas que simplesmente não sabem como era viver sem liberdade para nada. Tudo era patrulhado. Só faltava mesmo tomarem conta dos pensamentos — tal como no livro 1984, de George Orwell, que só li recentemente —, pois tudo o mais era controlado.

Atualmente, muitas pessoas, sem saber o que acontecia de verdade — pois creem no que a imprensa mostrava na época —, acham que não acontecia nada demais com quem “andava na linha” (seja lá o que isto signifique). Para essas pessoas, coisas ruins só aconteciam com quem “se rebelava”. Como se alguém simplesmente se rebelasse sem razão alguma – coisa de gente “terrorista”, como chamam. Como se a própria ditadura não fosse, ela mesma, a grande representação do terrorismo.

Enfim, como eu ia dizendo, sou cria da ditadura e, como tal, ouço muitos relatos do que acontecia nessa “página infeliz da nossa História”. E, como tal, tenho medo até de ouvir esses relatos. Porque só quem sentiu na pele esse terrorismo sabe como ele amedronta. Até mesmo o fato de tomar conhecimento pelos livros pode nos apavorar. Imagine, então, pensar num retorno! Deus nos livre!

E como filha da ditadura, fico muito comovida com essa letra de Vitor (que cabe perfeitamente na melodia de Ivan), como se alguém tivesse escrito tais confidências para mim. Afinal, “os dias eram assim”, e ainda assim não desistiram de olhar por nós, filhos desses anos de chumbo.

Quase sempre choro ouvindo essa música, pois de certa forma, a dupla está sim falando pelos nossos pais.

Então, vamos à letra:

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas 
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim

Para ver, ouvir e se emocionar comigo:




P.S. 1: Outra música citada é Certas canções (de Tunai e Milton Nascimento). Ouça também, com o Tunai (embora esta seja assunto para outro texto):



P.S. 2: Também gosto demais da gravação de Certas canções da minha Dinda Marianna Leporace, com o incrível violonista Willians Pereira, que nos deixou precocemente. Ouçam essa pérola também! :)

http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/marianna-leporace-e-willians-pereira/certas-cancoes/2457899

P.S. 3: Falando em Marianna Leporace, ela também gravou, junto com as lindas e queridas Cacala Carvalho e Eliane Tassis (no grupo vocal Folia de 3), Aos nossos filhos num arranjo arrepiante. Infelizmente não encontrei nenhum link, mas fica a dica para quem ainda não conhece.

2 comentários:

  1. É isso, minha querida. Sensível análise.
    As pessoas surtaram por ai e não fazem ideia de nada. Acham que a ditadura que vivemos é uma história da carochinha.
    Aos Nossos Filhos me comove sobremaneira também e sempre engasgo nos shows do Folia de 3. É muito forte a mensagem e só que viveu na pele ou teve na família quem viveu consegue entender.
    Mil beijos, com amor e com muita identificação ;-)

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    Respostas
    1. Oi, Dinda! :)
      Que bom que você gostou!
      Pois é, o desconhecimento pode ser realmente muito perigoso!
      Mas vamos que vamos!
      Um beijão!

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