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Petrópolis, RJ, Brazil
Danny Reis, cantora, revisora e tradutora. Apaixonada por artes, idiomas e comportamento.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Minha “praia” – parte final

Ou: quem é Danny Reis?


Aqui e aqui, andei contando como comecei a cantar. Na verdade, como comecei a levar a brincadeira um pouco mais a sério. Só que faltou concluir a história.

A verdade é que já andei me questionando muito sobre a cantora que eu sou — e especialmente sobre a cantora que eu quero vir a ser.

Já me perguntei muito se sou, afinal de contas, uma cantora profissional ou amadora. E ainda não cheguei a conclusão alguma. Até porque nunca vivi do meu canto. Não sou cantora de barzinho, não ganho dinheiro nenhum com isso, nem tenho um lugar fixo para cantar.

O que eu faço, falando de forma bem resumida, é correr atrás de um lugar — com um mínimo de estrutura —, pagar uns músicos para me acompanhar, divulgar o evento e subir no palco. Claro que nada disso é simples ou barato. Por isso, acabo não me aventurando nessa empreitada tanto quanto gostaria.

Cantando na Sala Baden Powell - uma alegria!

Fora que já gravei um CD, com as músicas que eu escolhi, com o produtor que eu quis, convidando os músicos que eu curto e, claro, com recursos bem limitados. Não nasci em berço de ouro, e mesmo que tivesse nascido, não sei se seria muito diferente. Talvez não fosse justo querer ter uma carreira bancada por “paitrocínio”. Ou talvez fosse, sei lá. Não importa (e eu não julgo quem faça isso).

 
Capa e contracapa do CD "Todo Dia".

A uma conclusão eu acabei chegando sim: que não me importo nem um pouco com o rótulo: cantora amadora ou profissional. Só quero mesmo é cantar, da forma que for. Quero é ser a melhor cantora que eu puder ser. E não, não estou nem um pouco disposta a desistir (embora muitas vezes tenha essa vontade, pois quando o desânimo bate, não é moleza).

E outra: cantar solo, em grupo ou em um coral enorme; ser acompanhada por uma big band, um pequeno regional de choro ou apenas um piano ou violão — tudo isso é válido, me agrada e faz parte da festa.

Mais ainda: se for pra cantar um repertório óbvio, que todo mundo canta, “largo” a música. “Largo” apenas entre aspas, porque quem deixa a música entrar na sua vida não para simplesmente; apenas se afasta do chamado “cantar profissionalmente” (olha o rótulo aí de novo!). Se fosse o caso, cantaria apenas dentro de casa, nos saraus da vida, em casa, com amigos.

Como ia dizendo, se for pra simplesmente repetir tudo o que já foi feito, tudo o que já foi dito, prefiro ser amadora e desconhecida pra sempre. Quero cantar o novo. O que me interessa é a novidade, são aquelas canções que ninguém (ou pouca gente) conhece, o pouco badalado. Sim, porque existe muita gente boa fazendo música de qualidade por aí!

Só que esses estão mais escondidinhos, não tocam nas novelas nem nos rádios, nem aparecem no Faustão. Dão um pouco mais de trabalho, mas estão por aí — concorrendo em festivais, colocando suas músicas no Youtube, no Soundcloud, dando a cara a tapa. Ralando. Assim como essa cantora desconhecida aqui.


Mas esse já é outro papo, que aliás dá muito pano pra manga. Vamos aguardar os próximos capítulos!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O que é escrever?



Há pessoas que escrevem corretamente. Sujeito, verbo, predicado, tudo nos seus devidos lugares. Coesão, coerência. Mas se lhes falta alma, é só cérebro. Aí não adianta, que a coisa não pega, não engrena. Nelson Rodrigues dizia que sem alma não se chupa nem um chicabon. Deve ser mesmo.

Em compensação, há pessoas que sabem como contar uma história lindamente. Elas parecem colocar no papel tudo aquilo que sentimos, mas não sabemos como expressar.

O primeiro tipo de pessoas pode ser um excelente revisor (xiiii), redator técnico, acadêmico ou qualquer coisa assim. Mas não é um escritor.

O escritor de verdade expõe sua alma — até quando não deseja. Não necessariamente ele escreve certo. Ele escreve gostoso. Dá gosto ler seus textos porque estes exprimem um sentimento — bom ou ruim, não importa. Assim, ele acaba por antingir em cheio o sentimento do leitor.

Na verdade, é assim que me sinto em relação a toda e qualquer arte. Um quadro pode ser lindo de morrer, mas se ele não expressa um sentimento verdadeiro, não "cola". Um cantor que canta as notas direitinho, de forma afinadinha, mas que não mostra o que vai na sua alma pode ser tudo, menos um artista.

Era mais ou menos isso que dizia uma crônica da Marta Medeiros que li há muitos anos, mas que infelizmente nunca mais encontrei. Ela dizia que a arte, se pensarmos friamente, não tem utilidade alguma. Ela não produz nada de concreto. Mas ela nos fala ao coração — e é aí que reside sua grandeza.

Agualusa e a tradução

Acabei de ler um artigo do escritor angolano José Eduardo Agualusa que amei:

SOBRE O INTRADUZÍVEL
(José Eduardo Agualusa, O Globo, 15.06.2015)



A semana passada jantei em Brighton, no Reino Unido, com o meu tradutor inglês, Daniel Hahn. Conheci Daniel há treze anos, numa altura em que ele estava ocupado a traduzir “Nação Crioula”. Aquela era a primeira tradução de Daniel. Sempre a achei excelente, mas Daniel contesta. Segundo ele contém um erro que o envergonha. Apáginas tantas surge no romance a palavra saudade, que Daniel optou por manter em português, com um asterisco que remete a uma nota de rodapé. Na nota, Daniel explica que a palavra, muito popular no universo de língua portuguesa, é das mais difíceis de traduzir.

O seu sentido, diz, combina emoções diversas, da comum nostalgia e melancolia, ao pesar de alguém longe da pátria, o sentimento de quem está a perder ou perdeu pessoas ou lugares. “Manter uma palavra na língua original, presa a uma nota de rodapé”, acrescenta Daniel, “é para um tradutor uma confissão de derrota.”

Nessa tarde, antes do jantar, entrei numa livraria para ver as novidades e acabei por comprar um livrinho curioso, “Lost in Translation” — um compêndio ilustrado de palavras intraduzíveis, de várias línguas do mundo. O livro, graficamente muito bonito, inclui apenas duas palavras na nossa língua: saudade e cafuné. Foi por causa do livro que a conversa chegou até a “Nação Crioula”.

Daniel Hanh é hoje um tradutor respeitado. Felizmente, para ele e para nós, não lhe falta trabalho. Há cada vez mais autores brasileiros, portugueses e africanos sendo publicados no mercado britânico e norte-americano. “Nada é traduzível. Tudo é traduzível” — disse-me ainda Daniel durante o jantar. Nada é traduzível porque, em rigor, cada palavra guarda um universo próprio. Tudo é traduzível porque não existe nenhum sentimento, por mais raro, por mais bizarro ou singular, que não possa ser expresso, melhor ou pior, numa outra língua. “Hoje eu traduziria a palavra saudade, conforme a situação, por nostalgia, longing, homesickness, etc.”, assegurou-me Daniel.

Curiosamente, acho que me venho movendo num sentido oposto ao do meu tradutor. Durante muitos anos acreditei que a suposta intraduzibilidade da palavra saudade não fosse outra coisa senão um mito poético, criado por portugueses, brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, que diria mais sobre a forma como nos vemos, ou como gostaríamos que os outros nos vissem, do que sobre a palavra em si. Hoje já não penso exatamente dessa forma. Não gosto de notas de rodapé. Gosto, contudo, da ideia de que, vez por outra, um tradutor se renda, derrotado, diante dos mistérios mais profundos de um idioma. “Tenho saudades suas” não é o mesmo que “I miss you” — “sinto sua falta”. É isso, mas é mais do que isso. Na dúvida, convém sempre ir à etimologia. Saudade vem do latim com o significado de solidão. Saudade, pois, é esse achar-se sozinho, longe de algo ou de alguém, e todavia perto através da lembrança e do coração. Não há palavra em inglês que resuma todas estas camadas de sentimentos.

O país que mais cultua a saudade não é nem Portugal nem o Brasil — é Cabo Verde. Basta escutar o fabuloso cancioneiro popular cabo-verdiano para o perceber. Em cada dez canções de autores cabo-verdianos, seis ou sete são sobre saudade. A canção mais famosa de Cabo Verde, aliás, deve ser mesmo “Sodade”, de Armando Zeferino Soares, que Cesária Évora ajudou a popularizar, mas que desde então já foi reinventada por dezenas de outras vozes. O culto à saudade não surpreende se tivermos em atenção que mais de metade dos cabo-verdianos reside fora do arquipélago. Saudade é palavra de viajantes.

Cafuné, a outra palavra portuguesa que Ella Frances Sanders, a autora de “Lost in Translation”, considera intraduzível, parece-me ainda mais interessante que saudade. A palavra vem do quimbundo, língua de Angola, da região de Luanda, e faz referência aos estalidos produzidos pelas unhas do polegar e do indicador, ou do anelar, enquanto se acaricia o cabelo, numa delicadíssima cerimônia de apaziguamento e relaxamento espiritual. Gosto tanto de cafuné, e tenho tanto respeito por essa velha arte, que inclusive escrevi um poema, “Receita para um cafuné segundo N’ga Xixiquinha riá Caxongo”, que a cantora paraibana Socorro Lira musicou e incluiu num dos seus álbuns.

Cafuné parece-me impossível de traduzir em outras línguas, sem uma longa nota de rodapé, desde logo por ser um ritual tão particular, e que tão bem traduz um certo universo íntimo, africano, que o Brasil adotou.

Saudade e cafuné poderiam, afinal, resumir o Brasil: a melancolia lusitana temperando e harmonizando-se com a doçura e a sabedoria ancestral da África. Isto pode ser traduzido? Receio que não.

Adorei o texto dele, por vários motivos:

1 - Amo a língua portuguesa. Mais do que o espanhol, que escolhi como minha segunda língua (mesmo sem nunca ter visitado - até hoje - um país que fale esse idioma), mais do que o italiano e o francês (duas línguas que também acho lindas, mas ainda não aprendi);

2 - Sou tradutora — ainda que iniciante. E é tão bom quanto difícil iniciar algo aos 40, que dirá uma nova profissão. E uma das maiores graças e desafios da tradução tem a ver com palavras, mas não somente. Coisa que só um tradutor entende;

3 - Fiquei feliz por saber da música da Socorro Lira;

4 - Uma confissão: quase sempre que leio um texto, especialmente literário, imagino a voz, a modulação e o sotaque de quem está falando - seja autor ou personagem. Uma maluquice minha que dá um sabor todo especial a um texto. Um livro, por exemplo, fica muito mais divertido;

5 - Adoro sotaques, e gosto de ouvir o jeito angolano de falar. Tem algo de português, mas não é português. Tem algo da malemolência brasileira, embora não seja brasileiro. E soa africano, autenticamente africano. É quase como ouvir outra língua, sabendo que é a sua língua materna. Particularmente, acho isso uma delícia!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Minha “praia” (ou quando comecei a cantar) – Parte II

Com a M-Música, vieram os saraus musicais, que chamávamos de “Segunda Segunda” e aconteciam na segunda segunda-feira de cada mês, como diz o nome.

Os saraus eram bem democráticos, mas privilegiavam a música autoral, independente e inédita.

No Panorama — um restaurante e pequena casa de shows no Leblon, onde o evento acontecia—, fui conhecendo mais músicas e também me desinibindo. Ali paguei muitos micos, saí derrotada várias vezes, confiante outras tantas, mas foi assim que comecei a realmente desenvolver o meu canto — sempre fazendo minhas aulas de técnica. Porque uma coisa é cantar para o professor; outra, bem diferente, é cantar para um público – ainda mais um público formado por músicos que você respeita e admira! Imaginaram o tamanho da responsabilidade?

Claro que vocês se lembram que citei a Marianna Leporace, né? Pois fomos nos aproximando mais, ficando mais amigas, e eu fui ficando cada vez mais fã de sua arte.

Um belo dia, ela me pergunta se eu continuava fazendo aula de técnica vocal. (Ou fui eu que pedi uma sugestão de professor? Sei lá, não lembro). Só sei que ela estava começando, na época, a dar aulas para o sobrinho, e me perguntou se eu queria ser também sua aluna. E o melhor: de graça, pois eu seria uma “cobaia”. Claro que topei!

Numa das aulas, ela me disse que eu tinha mesmo era que começar “nos palcos da vida”, sair dos limites (e do conforto) do Panorama, ou seja, “pagar pra ver”. Mesmo meio assustada com a proposta, fiquei também animada. Então, começamos a escolher um repertório.

Claro que, na época, eu não tinha a menor noção e fui escolhendo as músicas que curtia cantar. Ao que ouvi da Mari: “Nossa, isto está um siri com Toddy”! Morremos de rir e ela teve uma ideia: selecionar músicas inéditas, que nasceram na M-Música.

Perfeito! O que não faltavam eram músicas inéditas (ou nem tão inéditas assim, mas autorais) e de qualidade. Depois, o trabalho da Marianna seria me preparar para o palco. Ou seja, em vez de técnica vocal, nossos encontros focariam o trabalho cênico. Era mesmo o que eu mais estava precisando naquele momento!

Mas antes, precisávamos ouvir muitas músicas e ir escolhendo as que eu realmente cantaria em um show — e, possivelmente, gravaria depois, com calma. Aí, descobri que selecionar repertório é um exercício de desapego. Eu devo ter escolhido, com a ajuda da Marianna, umas 40 músicas pelo menos, das quais deveria selecionar apenas 12 ou 13.

E que caminho seguir? Uma linha mais pop? Mais nordestina? Mais urbana? Eu não queria nada disso. Falei que essa, aquela e mais aquela outra música tinham que entrar e pronto, mesmo que não tivessem nada a ver umas com as outras. Olha o “siri com Toddy” novamente!

E foi assim mesmo que o repertório ficou! Nada de seguir uma linha “isso ou aquilo”. Eu sou eclética, gosto de várias coisas diferentes, então por que não fazer um show exatamente dessa forma, ou seja, eclético? O único elo entre as canções seria mesmo a M-Música, onde elas nasceram.

Ah, não contei que tivemos a ajuda especialíssima do Thiago Silva, um ótimo violonista, arranjador e compositor, que estava começando a mostrar seu trabalho por aí!

Nos idos de 2007, então, fiz minha estreia no Café Palácio, um bar no Catete. Com o Thiago Silva no violão e nos arranjos, Vini Lobo no baixo e Rodrigo Reis (que não é meu parente, mas bem que poderia ser) na percuteria.




Eu, Rodrigo Reis, Vini Lobo e Thiago Silva

Foi boa demais essa estreia! Eu fiquei até calma, dada a situação, né, gente? E vieram outros shows, claro.


Eu e minha Dinda musical Marianna Leporace, em outro show, no mesmo local

(Continua)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Minha “praia” (ou como comecei a cantar)

Sempre me perguntam quando eu comecei a cantar. Minha vontade é de responder: “Desde sempre”, pois canto literalmente desde quando era pequena. Todo mundo começa pequeno, é verdade, mas uns param; outros continuam. Eu continuei.

Só que continuei muito quietinha, não querendo que ninguém me ouvisse. Cantava em casa, quando todos saíam, ou no chuveiro (dizem até que o chuveiro faz com que todos se sintam cantores profissionais, e deve ser mesmo), na ilusão de que ninguém me ouvia.

Um belo dia, mesmo com toda a minha timidez na época, depois de muito namorar um curso de música que oferecia aulas de canto, resolvi tentar. Fiz uma aula experimental e me matriculei. Isto durou pouco tempo, pois tinha que me dedicar aos estudos (não musicais, bem entendido).

Anos depois, já trabalhando (fora da música, em uma empresa de engenharia), vi outro curso de música, na Tijuca, e resolvi voltar a estudar canto. Fiz por um bom tempo umas aulas em dupla com outra cantora, que veio a se tornar minha amiga — a Clau. Meu professor, Marco Aurélio, tinha um home studio, e lá gravei um CD demo.

Depois veio o Centro Musical Antonio Adolfo, onde fiz aulas com outra amiga, a Lu. Lá, fiz minha primeira apresentação, no extinto Mistura Fina, onde cantei Fly me to the moon. Aí me disseram que no palco eu não parecia nada tímida. Delícia ouvir isso!

Anos depois, procurando por uma lista de discussão sobre música, encontrei casualmente uma lista chamada M-Música, da qual participo até hoje. Ali conheci gente de vários cantos do Brasil (e do mundo), com variados graus de envolvimento com música: cantores, músicos, compositores, jornalistas, simples (simples?) ouvintes etc. Vi nascerem as parcerias mais improváveis e até me arrisquei compondo algumas canções.

Cantei no coral da ASA (Associação Scholem Aleichem), judaica, que aceita pessoas de qualquer orientação religiosa, bastando ter disposição para cantar de tudo (em ídiche, ladino, hebraico, inglês e até português).

A primeira vez que conheci alguém da M-Música, foi no show da Marianna Leporace, integrante da lista, chamado São Bonitas as Canções, em dupla com a pianista Sheila Zagury. Acabei fazendo amizade com a Marianna e com vários “musgueiros”, como se denominam os participantes da M-Música.

Quando assisti àquele show, fiquei tão encantada quanto um menino do interior que vê o mar pela primeira vez — com olhos (e ouvidos) encantados! Talvez a Marianna não tenha noção do quanto esse show me impactou na vida, mas a verdade é que eu encontrei ali a minha “praia”.

Ali entendi o que é um show intimista — até então, só havia assistido a grandes shows, o que não me causava quase nenhuma comoção. Mais do que isso: conheci a junção perfeita entre música e teatro, sem que o espetáculo fosse uma peça musical. Mais ainda: descobri o que queria fazer para sempre (essas duas palavrinhas que sempre me causaram pânico).

Claro que, no fundo, eu ainda era muito insegura e não achava que daria conta, como a Marianna, de cantar para um público. Mas isso mudaria alguns anos depois...

(Texto a ser continuado)

Caminha

Estou caminhando! :)


sábado, 4 de abril de 2015

Das canções que falam por mim

Da cor brasileira
(Joyce e Ana Terra)

De quem falo me acha direita
Se casa comigo, se rola e se deita
Me namora quando não devia
E quando eu queria me deixa na mesa 
De quem falo me fala macio
E finge que entende o que nem escutou
Me adora e me quer tão somente
Enquanto o que mente é o que acreditou
Esse homem que passa na rua
Que encontro na festa e me vira a cabeça
É aquele que me quer só sua
E ao mesmo tempo que eu seja mais uma
De quem falo ele é feio e bonito
Mais velho e menino, meu melhor amigo
É o homem da cor brasileira
a loucura, a besteira que dorme comigo

* Da cor brasileira, mas nem tanto assim... rs

Canta, Joyce! :)



segunda-feira, 30 de março de 2015

Arte e Ariano Suassuna

Não é porque o Ariano Suassuna nos deixou que eu vou esquecer suas palavras. Nunca! E nem dá. :)

Diga lá, Ariano!


Das canções e das lembranças do que não vivi

Certas canções, como escreveu Milton Nascimento, “cabem tão dentro de mim”. Algumas músicas realmente nos batem de forma especial. Uma delas, no meu caso, é Aos nossos filhos, de Ivan Lins e Vitor Martins.

Acontece que sou “filhote da ditadura” (que, aliás, remete a outra música, esta da Suely Mesquita), pois meus pais viveram esses tempos bicudos. E hoje existem pessoas saudosistas que simplesmente não sabem como era viver sem liberdade para nada. Tudo era patrulhado. Só faltava mesmo tomarem conta dos pensamentos — tal como no livro 1984, de George Orwell, que só li recentemente —, pois tudo o mais era controlado.

Atualmente, muitas pessoas, sem saber o que acontecia de verdade — pois creem no que a imprensa mostrava na época —, acham que não acontecia nada demais com quem “andava na linha” (seja lá o que isto signifique). Para essas pessoas, coisas ruins só aconteciam com quem “se rebelava”. Como se alguém simplesmente se rebelasse sem razão alguma – coisa de gente “terrorista”, como chamam. Como se a própria ditadura não fosse, ela mesma, a grande representação do terrorismo.

Enfim, como eu ia dizendo, sou cria da ditadura e, como tal, ouço muitos relatos do que acontecia nessa “página infeliz da nossa História”. E, como tal, tenho medo até de ouvir esses relatos. Porque só quem sentiu na pele esse terrorismo sabe como ele amedronta. Até mesmo o fato de tomar conhecimento pelos livros pode nos apavorar. Imagine, então, pensar num retorno! Deus nos livre!

E como filha da ditadura, fico muito comovida com essa letra de Vitor (que cabe perfeitamente na melodia de Ivan), como se alguém tivesse escrito tais confidências para mim. Afinal, “os dias eram assim”, e ainda assim não desistiram de olhar por nós, filhos desses anos de chumbo.

Quase sempre choro ouvindo essa música, pois de certa forma, a dupla está sim falando pelos nossos pais.

Então, vamos à letra:

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas 
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim

Para ver, ouvir e se emocionar comigo:




P.S. 1: Outra música citada é Certas canções (de Tunai e Milton Nascimento). Ouça também, com o Tunai (embora esta seja assunto para outro texto):



P.S. 2: Também gosto demais da gravação de Certas canções da minha Dinda Marianna Leporace, com o incrível violonista Willians Pereira, que nos deixou precocemente. Ouçam essa pérola também! :)

http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/marianna-leporace-e-willians-pereira/certas-cancoes/2457899

P.S. 3: Falando em Marianna Leporace, ela também gravou, junto com as lindas e queridas Cacala Carvalho e Eliane Tassis (no grupo vocal Folia de 3), Aos nossos filhos num arranjo arrepiante. Infelizmente não encontrei nenhum link, mas fica a dica para quem ainda não conhece.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Defeitinhos

Fico pensando nessa nossa mania de querer parecer perfeitos. Temos que ser muito magrinhos, elegantes, estar muito bem vestidos, sem aparentar cansaço — por mais exaustos que estejamos.

Não podemos nem mesmo deixar transparecer nossas emoções. Se aparentarmos estar felizes, alguém pode nos invejar; se parecermos tristes, podem ficar com pena – e este sentimento nós dispensamos, certo?

Arre, estou farto de semideuses!

Detesto lidar com robôs, seja num atendimento telefônico pelos próprios — quem já teve que ligar pra Oi e teve ódio do Eduardo levanta a mão! —, seja pessoalmente, quando o atendente não dá um sinal de solidariedade que seja.

Voltando aos nossos defeitinhos, quem nunca se apaixonou por um dentinho torto ou um pé-de-galinha que dá todo o charme àquela pessoa? Ah, sim, nós até ignoramos (ou curtimos) o defeito do outro! Por que, então, os nossos próprios incomodam tanto?

Não seria libertador nos apaixonarmos pelas nossas falhinhas também? Por que tanta mania de perfeição? Por que precisamos ser tão duros com nós mesmos?

Onde fica a nossa humanidade?

Pra pensar:
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro (Clarice Lispector).

Pra ouvir:



segunda-feira, 23 de março de 2015

Sair de si ou não? Eis a questão!

Acabo de ler uma frase que me fez pensar:
Só vale morar em alguém se não nos ausentarmos de nós.

Aí, fiquei pensando nuns versos do Vinicius de Moraes:
Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém.

E aí? À primeira vista, esses dois princípios se chocam, certo? Mas vamos refletir melhor: é preciso sair de si, olhar para além do nosso próprio umbigo, ver que existem outros mundos diferentes do nosso, pra amar alguém. Fato.

Só que isso não significa, de forma alguma, ir contra os nossos princípios!

Claro que sempre é válido termos pontos de vista bem diferentes do nosso, para podermos confirmar que estávamos certos ou, ao contrário, vermos que não era nada disso; surpresa: estávamos errados. Não há nada de mau nisso.

O que é mau é viver em função do outro, de forma a nos violentar. Não devemos nos deixar ferir pelo outro. Isto apenas demonstraria falta de autoestima.

Portanto, as duas frases convivem – e muito bem. O desafio é – como em quase tudo na vida – encontrar o caminho do meio.


É fácil? Claro que não! Nem sempre o melhor caminho é o mais fácil. Aliás, quase nunca. Mas esse é um papo pra outra crônica. ;)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Mente sem lembranças?

Esta noite tive um sonho do qual me lembro quase perfeitamente. Quem me conhece sabe que isso é muito raro. Quase nunca lembro o que sonhei, e quando lembro, são apenas fragmentos de uma história surreal. Mas não esta noite.

Sonhei com um antigo namorado, que surgiu do nada (adoro a expressão em inglês “out of the blue”) e do nada também sumiu. Nos poucos meses em que nos relacionamos — quando fiquei de quatro por ele —, fui ao mesmo tempo a mulher mais feliz e a mais neurótica. Andava nas nuvens, não queria saber de mais nada ou ninguém e morria de ciúme na mesma proporção que ele sentia de mim. Em suma, uma loucura e um relacionamento nada saudável.

Sair disso foi rápido mas também doloroso. Briguei com a minha família inteira, fiquei desesperada achando que nunca mais amaria ninguém (santa ingenuidade, Batman!), mas sabia que era necessário deixá-lo ir embora – se Deus quiser, pra sempre.

Acontece que ele foi, mas esta noite apareceu (também do nada) no meu sonho, me deixando totalmente balançada e na dúvida se deixava o meu “namorido” — o Tony, imaginem só! — e voltava com ele. O Tony ficava cheio de ciúme, mas sem dar o braço a torcer. Não sei como terminou esse pesadelo, mas não gostei nadinha dessa “visita” inesperada.

Ocorre que ainda agora li sobre um dos filmes da minha vida — Brilho eterno de uma mente sem lembranças (texto aqui)—, o que, claro, fez muito sentido! Claro que já contei para o Tony sobre esse namoro (que eu chamo de “tsunami na minha vida”), mas a verdade é que eu gostaria mesmo era de apagar esse episódio da minha mente. Seria como se nada disso tivesse acontecido de verdade.


Por outro lado, me pergunto o óbvio: seria eu essa mesma pessoa hoje em dia se não nada disso tivesse acontecido?


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Inveja boa?






Há muitos anos, li o livro Inveja, mal secreto, do maravilhoso Zuenir Ventura. Sem entrar em detalhes, nessa obra, ele conclui que não existe inveja boa. Segundo ele, toda inveja é ruim e causa mal, tanto àquele que inveja quanto ao invejado.

Longe de mim querer duvidar do Zuenir, mas a verdade é que sempre questionei essa afirmação. Na minha modestíssima opinião, o que difere a inveja boa da má é a cobiça.

Convenhamos: a inveja é um sentimento humano e pode nos acometer a qualquer momento. Ou você vai dizer que não gostaria de ter o corpitcho da Juliana Paes? Ou o rosto da Letícia Sabatella? Ou a grana do Bill Gates?

Todo mundo, em maior ou menor grau, ao menos uma vez na vida já desejou ter a vida de outra pessoa. Daquele seu amigo que vive viajando, por exemplo, enquanto você rala pra conseguir visitar de novo aquela cidadezinha logo ali, perto de você.

Eu admito que já. A grande diferença é que eu não gostaria de estar no lugar daquela pessoa. Tudo bem a Cris Viana ter aquela cinturinha; só que eu gostaria de ter uma cinturinha tão linda quanto! Tudo bem o Fulaninho viajar de três em três meses. Eu só gostaria de conseguir fazer o mesmo!

Numa boa: não cobiço o lugar de ninguém nesta vida. Até porque a gente não sabe como é viver naquela outra pele. Cada um tem as suas questões, seus conflitos, seus desejos não realizados. Aquela pessoa que parece ser tão feliz por ter muita grana, por exemplo, pode sofrer de solidão. Aquela outra, tão linda, pode ter dificuldade nos relacionamentos.

Indo mais longe, acredito que só cobiça aquele que não sabe lidar com o sentimento. Aquele que não admite sentir nem uma pontinha de inveja provavelmente, lá no fundinho, tenta reprimir o sentimento que tanto disseram ser feio. Então, quando a inveja reprimida escapole, a pessoa nem percebe que está ali cobiçando estar no lugar do outro.

E aí, haja pé de coelho, galho de arruda, olho grego... Não há amuleto que dê jeito!