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Danny Reis, cantora, revisora e tradutora. Apaixonada por artes, idiomas e comportamento.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Terapia da Palavra

Vocês lembram que eu falei que ia começar uma oficina literária, né? Comecei e estou adorando!

A oficina se chama Terapia da Palavra, e ela funciona assim: toda semana, a gente recebe uma apostila, com um texto e uma tarefa, que deve ser feita até a semana seguinte.

Na primeira semana, nossa tarefa era escrever um texto livre, baseado na crônica “Eu sei, mas não devia”, da Marina Colasanti. Para quem não a conhece, ela diz assim:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Depois de pensar no tema por uns dias, resolvi encarar, e meu texto saiu:

Eu sei que devia

Sim, eu sei que devia ter terminado aquela faculdade de Arquitetura. Poderia ter me tornado uma grande arquiteta, quem sabe... Ou até ter me tornado, quem sabe, uma artista plástica.

Ou quem sabe aquela outra faculdade que tentei, de Design Gráfico. Talvez hoje eu pudesse estar fazendo uns trabalhos “freelancer” como webdesigner, como pensei inicialmente.

Eu poderia ter continuado a dançar. Podia ter virado uma professora de dança. Assim quem sabe eu não estivesse magrinha, me sentindo linda, e ainda ganhando um dinheiro com algo de que gosto tanto.

Eu devia ter continuado...

Eu sei que devia ter saído antes daquele emprego que não me pagava bem, não reconhecia meu trabalho, e que ainda por cima me desrespeitou como profissional. Eu devia! Mas talvez eu tivesse depois abandonado meu desejo de escrever.

Eu sei que devia.

Devia?

Se tivesse feito todas essas coisas, talvez eu hoje não cantasse. Talvez não tivesse os amigos que ganhei. Talvez tivesse continuado tão tímida quanto antes. Quem sabe?

A verdade é que tudo aquilo que fiz, e que deixei de fazer, me tornaram o que sou hoje.
Melhor, pior? Não importa. Hoje eu sou essa aqui. E me gosto exatamente assim, com todos os meus defeitos e qualidades. Mesmo com todas as desistências.

Depois de enviar o texto para o e-mail indicado, nossos textos são publicados em um blog (secreto). A parte mais legal, para mim, é que os participantes são estimulados a comentar os textos uns dos outros. Assim, a gente fica sabendo como a nossa escrita “bateu” para cada um, e o resultado é bem surpreendente!

Estou gostando bastante dos textos de todos os participantes, o que também é ótimo!

P.S.: Quem tiver interesse em saber mais sobre a oficina pode acessar o site www.terapiadapalavra.com.br/.

2 comentários:

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